A manchete do UOL anunciava hoje que Lula se dizia “profundamente consternado por morte de Zilda Arns e militares” (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/13/ult5772u7041.jhtm).
Corri para o texto, porque me pareceu quase impossível o presidente pronunciar a palavra “consternado”. O corpo da notícia esclarece melhor: é uma nota oficial, não foi o presidente quem se manifestou verbalmente.
Todos sabemos que notas oficiais de presidentes, em geral, não são redigidas por eles. Imagino que todos eles tenham um ghost writer para esse trabalho, exceção feita a Getúlio Vargas e sua carta de suicida.
De qualquer forma, a nota subscrita por Lula foi extremamente infeliz ao declarar que “transmito meu pesar e minha total solidariedade ao povo haitiano e à família das vítimas brasileiras, civis e militares, em especial à de Zilda Arns”.
Por que uma vida, por mais digna e benfazeja, deve ter seu fim lamentado em especial, em detrimento de milhares de outras vidas? Essa postura discriminatória não foi adotada pelo bispo católico, irmão de Zilda: ele declarou elegantemente que ela “sofreu com o bom povo do Haiti o efeito trágico do terremoto”.
A pediatra e sanitarista Zilda Arns desenvolvia um trabalho humanitário e eu admiro isso. Já quando esse trabalho é desenvolvido por motivações religiosas, para garantir um lugar no paraíso – o que quer que isso seja –, já não admiro tanto. Isso porque acredito que o humanitarismo é quase que um instinto humano e não deveria ser valorizado quando praticado em troca de alguma coisa, mesmo que seja uma coisa sobrenatural e inconsistente.
No entanto, não se pode conhecer a motivação íntima das pessoas e também não posso nem devo condenar ninguém a priori por ter uma crença religiosa. Por isso, Zilda fica com o benefício da dúvida e seu trabalho deve ser respeitado.
Admito, portanto, que ela efetivamente amava os outros seres humanos, pelo simples fato de serem humanos, e desejava lhes proporcionar uma vida real digna, independentemente de uma suposta vida após a morte.
Apesar de todo esse respeito devido a Zilda, a nota assinada pelo presidente foi lamentável ao considerar a vida dela mais especial que a vida de todas as outras vítimas do terremoto.
Creio que o Planalto deveria ter soltado uma nota para todas as vítimas e outra nota específica para Zilda. Aparentemente a mídia não se deu conta dessa mancada diplomática. O fato é que, pra mim, essa nota presidencial pareceu uma atitude muito feia.
A Dra. Zilda, provavelmente, a julgar pela sua história, também não gostaria disso.