domingo, 17 de janeiro de 2010

Excruciante? Ora, faça-me o favor...

Amanhã, vou me submeter a uma cirurgia na coluna lombar para fixar uma escoliose. Ela foi diagnosticada quando eu ainda era jovem, mas os sintomas dolorosos se agravaram boçalmente nos últimos anos.

É uma dor excruciante.

Pera aí, deixa eu dizer isso de maneira mais simples: dói pra caralho!

Eu não consigo ficar cinco minutos em pé, não consigo andar vinte metros. Estou semi-inválido e por isso vou correr o risco de uma cirurgia que é uma verdadeira tourada para os cirurgiões.

Isso irá justificar minha ausência deste espaço nos próximos dias. Se o desfecho for infausto (sempre tive vontade de usar essa palavra), minha ausência será definitiva e este espaço merecerá o status de blog mais efêmero da internet – honraria que estou ardentemente dispensando.

Pra não perder o hábito, vai um poeminha

CHINELOS


Eu nem sempre fui

essa coisa vetusta e gasta

que agora você vê.


Mas nem a lembrança ficou.

Porque a lembrança

não fica mesmo:

ela sempre vai embora,

só que mais devagar,

arrastando os chinelos

como os velhos

que procuram retê-la.

O que resta sempre

e permanece --

inda que indesejado,

e sem que se saiba,

ou que se lembre o porquê --

                     é este amargo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Porque hoje é sábado


Ontem não postei nada.



Muita gente deve achar que eu sou um velho aposentado, que não tem mais o que fazer a não ser escrever besteiras neste espaço. Mas o fato é que eu trabalho feito gente grande e, às vezes, não sobra tempo para escrever.


Eu até tinha pensado em discorrer sobre “escangalhar”, um verbo que, não sei por que, acho engraçado. Seria puro besteirol, mas besteirol também é cultura – e, mesmo que não fosse, este não é um espaço cultural. Quem quiser cultura que acompanhe os releases do Planalto. Bom, mas afinal acabei concluindo que o tema não dava samba.


O fato é que hoje vou degustar uma feijoada, programa originalíssimo para o almoço do sábado. Há algum tempo, quando um amigo me mandou um e-mail falando em “degustar uma feijoada”, expliquei para ele, pacientemente: quem “degusta” feijoada é veado, porra!


No entanto, aqui estou eu usando esse verbo, em vez de “comer” ou “traçar”. E garanto que não mudei minha opção sexual. Acontece que essa feijoada será em família, com meus filhos, sobrinha, sobrinha-neta e neto. Então, degustar aqui se aplica ao contexto em que a feijoada será devidamente devorada.


Depois, é claro, vou tirar uma soneca: quando traço um feijão eu fico escangalhado...





quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filipe e Rafa: bonitos que nem o avô


Pausa


Por falar em louco, talvez o título do blog não tenha sido escolhido de forma tão aleatória como eu tinha dito: descobri esse poeminha que cometi há muitos anos e que tem tudo a ver com essa insanidade.
Uma pausa para a loucura...


Sensatez



Insensatos são os outros.

É certo que sou poeta
no mau sentido da palavra,
no que ela tem de pejorativo
      e de tolo,
na alienação que sugere,
no que lembra
      devaneio e fuga.

Mas não sou insensato.

Admito que fantasio,
      que falo sozinho
                  e tenho visões,
      que ora me recolho catatônico
                  e ora danço pelas ruas,
      que me embriago
                  e digo coisas desconexas.
Reconheço que não é pouco,
mas assim são os fatos.
Aceito que sou louco.
Mas os outros, sim,
      são insensatos.

É verdade que me apaixono
      e me entrego
      e mergulho em desespero
      e em voragem suicida.
Que choro sem razão
      uma noite inteira
e, com razão,
      no dia seguinte.
Que blasfemo contra o criador
      e contra a criatura,
contra o caricaturista
      e contra o caricato.
Aceito minha loucura,
mas eu não:
      os outros
                  é que são insensatos.









quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por falar em Lula...

A manchete do UOL anunciava hoje que Lula se dizia “profundamente consternado por morte de Zilda Arns e militares” (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/13/ult5772u7041.jhtm).
Corri para o texto, porque me pareceu quase impossível o presidente pronunciar a palavra “consternado”. O corpo da notícia esclarece melhor: é uma nota oficial, não foi o presidente quem se manifestou verbalmente.
Todos sabemos que notas oficiais de presidentes, em geral, não são redigidas por eles. Imagino que todos eles tenham um ghost writer para esse trabalho, exceção feita a Getúlio Vargas e sua carta de suicida.
De qualquer forma, a nota subscrita por Lula foi extremamente infeliz ao declarar que “transmito meu pesar e minha total solidariedade ao povo haitiano e à família das vítimas brasileiras, civis e militares, em especial à de Zilda Arns”.
Por que uma vida, por mais digna e benfazeja, deve ter seu fim lamentado em especial, em detrimento de milhares de outras vidas? Essa postura discriminatória não foi adotada pelo bispo católico, irmão de Zilda: ele declarou elegantemente que ela “sofreu com o bom povo do Haiti o efeito trágico do terremoto”.
A pediatra e sanitarista Zilda Arns desenvolvia um trabalho humanitário e eu admiro isso. Já quando esse trabalho é desenvolvido por motivações religiosas, para garantir um lugar no paraíso – o que quer que isso seja –, já não admiro tanto. Isso porque acredito que o humanitarismo é quase que um instinto humano e não deveria ser valorizado quando praticado em troca de alguma coisa, mesmo que seja uma coisa sobrenatural e inconsistente.
No entanto, não se pode conhecer a motivação íntima das pessoas e também não posso nem devo condenar ninguém a priori por ter uma crença religiosa. Por isso, Zilda fica com o benefício da dúvida e seu trabalho deve ser respeitado.
Admito, portanto, que ela efetivamente amava os outros seres humanos, pelo simples fato de serem humanos, e desejava lhes proporcionar uma vida real digna, independentemente de uma suposta vida após a morte.
Apesar de todo esse respeito devido a Zilda, a nota assinada pelo presidente foi lamentável ao considerar a vida dela mais especial que a vida de todas as outras vítimas do terremoto.
Creio que o Planalto deveria ter soltado uma nota para todas as vítimas e outra nota específica para Zilda. Aparentemente a mídia não se deu conta dessa mancada diplomática. O fato é que, pra mim, essa nota presidencial pareceu uma atitude muito feia.
A Dra. Zilda, provavelmente, a julgar pela sua história, também não gostaria disso.

O Haiti não é aqui


O Haiti é uma merreca de país, com menos de 80 mil km² e cerca de 8 milhões de habitantes.
Aboliu a escravatura no século 18 e tornou-se independente da França no início do século 19, ou seja, antes que esses eventos ocorressem no Brasil. Portanto, digam o que disserem, o fato é que os haitianos podem afirmar: nossa miséria, fomos nós que construímos...
Bom, talvez não os haitianos todos, mas durante muitos séculos sempre existiu um punhado deles dedicado a conturbar e arruinar o país.
Na história mais recente, me lembro de François Duvalier, o Papa Doc. Ele foi eleito presidente, mas tornou-se um ditador. Não, não um ditadorzinho qualquer, mas um criminoso empedernido e cruel. Os seus policiais, que  aterrorizavam a população com o vodu, eram conhecidos como tontons macoutes, que significa bichos-papões.
Quando morreu, o filho dele, Baby Doc, herdou o cargo de ditador, mantendo o regime, mas acabou fugindo do país em meados dos anos 1980. A partir daí, o Haiti teve uma miríade de governantes, todos sucessivamente depostos em golpes de estado quase que mensais.
Com tudo isso, essa merreca de país atingiu o status de pais mais pobre das Américas.
E agora vem esse terremoto devastador... Aos destroços econômicos, sociais e morais, somam-se os destroços nada metafóricos da ação da natureza.
Acho que vou parar de criticar o Lula...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Não é um blog médico

Sou médico, mas vou evitar temas de Medicina neste espaço.
Também não quero ficar preso à formalidade e à correção política que, geralmente, as pessoas esperam de um profissional de saúde.
Aqui, estou de férias...
Por outro lado, não estou fazendo nenhum juramento ou assumindo um compromisso solene: pode acontecer que a Medicina, de tão entranhada em mim, acabe aflorando nessas mensagens.
Em resumo, o que eu quero dizer é que, embora seja um blog de médico, este não é um blog médico.

Por que "de médico e de louco..."?

Não há razão nenhuma, é um título sem qualquer justificativa ou duplo sentido.
Não tem justificativa, mas tem explicação. Há pouco, comecei a estruturar esse blog e quando me pediram o nome , embatuquei. Naveguei um pouco, enquanto pensava no título, e li num site de livraria que "de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco". Voltei pra cá e botei o título, excluindo o poeta. Muito embora eu já tenha me metido a poeta e até pretenda, vez por outra, postar alguns dos poemas que cometi.
De resto, não tenho planos pra esse espaço. Vamos ver...