quinta-feira, 22 de abril de 2010

Asco

Uma das manchetes da Folha Online hoje é: “Greve de professores foi campanha anti-Serra, diz procurador-geral

Uau!

Eu disse isso neste Blog, tão logo a greve foi noticiada. Deixei claro que era armação e que não se pode confiar na pelegada que se propõe a fazer greve por professores ou outros funcionários públicos.

Greve de funcionário público é uma contradição em termos. Greve pressupõe um patrão que vai amargar um prejuízo: é a greve dos bancários, a dos ferroviários, a dos industriários. Greve de funcionário público, pelo contrário, significa que o público, a população, é que vai ser punida. Não existe um patrão, um dono de capital sendo pressionado..

A reportagem da Folha se refere a um parecer da Procuradoria-Geral Eleitoral, segundo o qual a “greve organizada pelo sindicato dos professores da rede estadual de São Paulo, em março, teve caráter de ‘propaganda eleitoral antecipada negativa’ contra o pré-candidato tucano à Presidência, José Serra”.

O texto do Procurador recomenda ao tribunal “a aplicação de muta ‘no valor máximo’pela ‘gravidade da conduta’ da Apeoesp e da dirigente, Maria Izabel Azevedo Noronha.

Eu preferia que tivesse me enganado, que tivesse feito um julgamento precipitado e injusto.

Infelizmente não.

domingo, 11 de abril de 2010

PINGUÇOS... UNIDOS... JAMAIS SERÃO VENCIDOS!

Nesta semana tétrica, realmente a única notícia divertida foi a da greve na Cervejaria dinamarquesa.

A Carlsberg, desde mil, oitocentos e antigamente, tem a tradição de deixar seus empregados consumirem sua cerveja a qualquer hora do dia, mesmo durante o expediente. A fábrica tem geladeiras espalhadas pelo seu interior com água, refrigerante... e cerveja.

A direção resolveu acabar com isso: o consumo de cerveja só seria permitido durante o horário do almoço. A peãozada não titubeou: greve na cervejaria.

Solidariamente, interrompo este noticiário para beber uma latinha. De Skol, que uma marca de propriedade da Carlsberg.

TRINO

Hoje, a lua não veio:
        álacres,
        as estrelas se esbaldaram.

sexta-feira, 2 de abril de 2010

BELO HORIZONTE

As mãos do fantasma
tendem a ficar desfocadas
e trêmulas.
Paroxisticamente fora de foco
e trêmulas,
quer quando postas em oração,
quer nos gestos obscenos,
quer nos acenos de adeus.

As mãos do fantasma
têm os dedos meus.

REAGAN E EU

Em 1994, Ronald Reagan anunciou pessoalmente aos Estados Unidos que estava com Alzheimer. Ele tinha 84 anos de idade e ainda viveu mais 10 anos.

Confesso que fiquei bem impressionado: o sujeito recebe esse diagnóstico e, com a lucidez que ainda lhe resta, vai aos meios de comunicação cientificar sua nação – que havia governado durante oito anos. E aproveitou para pedir que os futuros governantes e os políticos em geral trabalhassem por maiores investimentos na pesquisa de um tratamento eficaz para essa doença.

É claro que é um gesto que também pode ser interpretado como um pedido de desculpas antecipado, pra evitar pagar mico: olha, se vocês me virem fazendo alguma besteira é porque estou com Alzheimer, em meu perfeito juízo eu não faria isso... De qualquer maneira, eu enxergo alguma grandeza nesse gesto.

Eu ainda não estou anunciando que estou com Alzheimer, mas estou me preparando para fazer isso. Sempre tive uma memória sofrível, para não dizer nula, mas ela piorou muito com a hipoxemia que sofri no pós-operatório da cirurgia na coluna – depois eu conto isso em detalhes, que me foram passados pela minha memória auxiliar, a Ana.

Por exemplo, agora mesmo, tive que esperar uns dez minutos até lembrar o nome de Reagan. Eu visualizava sua imagem, lembrava do papel que ele representou na economia mundial – mas não lembrava o nome dele.

Tomei a decisão: vou procurar um neurologista para verificar se minha hipótese clínica se confirma ou não. Se for confirmada, os dois ou três leitores deste blog serão notificados em primeira mão.

SIRI E BACALHAU

Decidiu-se(1) que hoje vamos almoçar frigideira de siri conjuntamente com o bacalhau que a Rosane -- minha sobrinha, afilhada e nora -- está preparando.

Eu sou fissurado em frutos do mar, mas lembro que, quando era jovem, nas sextas-feiras ditas santas, eu fazia questão de comer um suculento filé, de preferência em um restaurante. O objetivo subjacente era propagar meu desprezo pelas tradições cristãs. Hoje eu não estou nem aí. É pra comer bacalhau, eu como, tudo bem.

Não estou certo de que essa atitude seja a mais correta filosoficamente. Há ateus que defendem a tese de que os ateus deveriam ser mais atuantes, mais explícitos na defesa de suas convicções.

Mas, como diria alguém(2): a velhice é uma merda...

(1)Sempre que eu não identificar quem praticou a ação, subentenda--se que estou me referindo à Ana. Por exemplo, onde se lê “decidiu-se”, leia-se “a Ana decidiu”.


(2)E se ninguém disse, digo eu agora.

TRINO

Eu me absolvo, mas,
inda assim,
sou crucificado.

quarta-feira, 31 de março de 2010

ÀS MARGENS DO SENA (by Roni)

SEQUESTRO ETC.

No texto de ontem, sobre a greve dos professores de escolas públicas, deixei um ponto de interrogação: “suas justas (?) reivindicações”.

Quero explicar essa dúvida. Na pauta de reivindicações  -- elaborada, é claro, pelas lideranças que a gente conhece --, consta o repúdio às provas para os temporários. Ou seja, pretende-se piorar ainda mais o padrão de qualidade dos professores, assimilando  professores sem medir sua competência.

Aliás, o corporativismo dessa e de outras categorias profissionais leva justamente ao oportunismo de ocupar espaço sem ter que provar nada. A incompetência, a deficiência de formação, a malandragem em fugir das obrigações, os atestados médicos, a saída das salas de aula para atividades administrativas – tudo isso é, ou parece ser, endêmico entre os professores de escolas públicas.

Devem ser execrados por isso? Evidentemente que não. É necessário criar um sistema de controle e de estímulos, que selecione os professores que realmente se orgulhem de sua função. E que, dadas as condições adequadas, constituem a maioria deles.


No entanto, aprofundar esse assunto aqui seria muito fastidioso, considerando que este blog tem o compromisso de só publicar besteiras...

TRINO

O púbis dela
recendia a romã.
Fiquei anósmico

terça-feira, 30 de março de 2010

AINDA O SEQUESTRO

Em 06.03, fiz uma postagem neste blog, intitulada Sequestro de Crianças, criticando a covarde greve dos professores em São Paulo, que tomam como reféns as crianças da rede pública. Não por coincidência está  sendo em São Paulo, como se verá adiante, mas seria covarde em qualquer lugar. Praticamente, o que os grevistas dizem ao governo é: "Dê o que reivindicamos ou deixaremos milhares de criança sem instrução -- e todas essas crianças são filhas do povão, não têm como estudar em outro lugar...".

Um outro aspecto é escondido por esse tipo de greve. É sabido, principalmente por quem já foi militante de esquerda, que a direção das entidades associativas é disputada por partidos políticos que têm uma militância de base, tais como PT (majoritário), PC do B e outros menos votados. Esses partidos utilizam essas entidades como suas ferramentas, fazendo proselitismo partidário descaradamente, entre outras práticas nocivas.

Por exemplo, a imprensa acaba de desmascarar a greve dos professores paulistas como um pano de fundo para justificar uma campanha contra o governador de São Paulo, José Serra, que, não por acaso, é o adversário da candidata do PT à Presidência da República. O noticiário nos dá conta agora que as entidades que promoveram a greve comandam palavras de ordem contra a candidatura de Serra -- em filmes, em comícios e em passeatas . Em suma: o que deveria ser uma campanha em prol das reivindicações dos professores passa a ser uma campanha partidária contra o candidato de oposição.

Não que eu ache que isso prejudique a campanha de ninguém nem que eu seja partidário de A ou de B. Mas utilizar os professores e suas justas (?) reivindicações como massa de manobra para interesses político-partidários é, indiscutivelmente, uma prática suja.

TRINO

A velhinha tricotava
um cochilo.
E as moscas observavam.

terça-feira, 23 de março de 2010

SANGUE


Hoje ocorreu um episódio sangrento aqui em casa: depois de muitos meses, consegui me cortar todo ao me barbear. Alguém que olhasse diria: ele está se barbeando? Parece mais uma tentativa de suicídio...
Por que será que hoje, depois de tanto tempo, eu me cortei?
Os freudianos e correlatos dirão que é um castigo que me infringi inconscientemente por alguma culpa reprimida que envolve minha mãe. Eles sempre botam a mãe no meio.
Eu, mais prosaicamente, atribuo o incidente ao fato de a lâmina que usei já estar muito velha. Não se pode economizar nesses aparelhos: depois de três meses de uso diário, tem que trocar por outro.
Na verdade, porém, eu estou é criando um clima de sangue e suspense para ver se aumento o número de leitores deste blog...
Em breve, cenas de pugilato, triângulos amorosos e traição.

TRINO

Carrego teu corpo
nos meus olhos:
daí a vista cansada.

sexta-feira, 19 de março de 2010

LÁGRIMAS

Lágrimas, por vezes, são acres,
azedas, amargas lágrimas.


E, no entanto, acabam por secar
como orvalho em rosadas pétalas,
sem deixar marcas ou cheiro.


Lágrimas estigmatizadas,
água do mar diluída,
que não sacia a sede
de quem dela bebe e nela se embebe,
nem embriaga tampouco.


Nascentes, olhos d'água de lágrimas,
daqui efluem e fluem
sem leito próprio e sem estuário,
lágrimas efêmeras,
lágrimas mágicas, imaginárias,
deixando na boca um gosto acerbo
e ferruginoso.


Líquido inútil,
não apaga os incêndios interiores
nem sequer arrefece
o calor que sinto aqui, no peito.


E tampouco lava minha alma
ou minhas mãos
ou meus pensamentos.
Lágrimas fúteis,
não palatáveis,
lágrimas perecíveis.

"É o fígado", dizem os tolos,
para explicar esse gosto amargo que sinto.

TRINO

Bastava tua saliva
pra consertar meu coração
                            rasgado

BIG FIELD -- TWILIGHT (by Diogo)

quinta-feira, 18 de março de 2010

TRINO

Às vezes eu durmo
e sonho um poema
                de saia

Hoje, teve eleições na Unimed e as urnas deram a vitória à chapa 1, para a qual trabalhei discretamente. A diferença foi de 16 votos, por isso eu não usei o verbo consagrar. Mas não importa. Foi uma vitória, é a regra do jogo. 

Meu apoio à chapa vitoriosa se deveu a vários fatores: competência técnica, programação realista, equipe aparentemente afinada -- e por aí vai. No entanto, bastaria o fato de estar na chapa uma pessoa que, profissionalmente, eu aprendi a admirar muito: Dra. Sarita Duarte. 

A Sarita é uma mulher incrível, com uma capacidade de trabalho fantástica. Além de discernimento, objetividade e agilidade nas decisões. Sem esquecer do equilíbrio, honestidade de propósitos e senso de justiça. Já deu pra ver que eu sou um tremendo fã dela?


O fato é que ela foi um dos alicerces da Diretoria cujo mandato se encerra, e será também, sem dúvida, dessa que ora inicia sua gestão. Tenho essa certeza porque o Paulo de Tarso,  presidente eleito, que é um cara inteligente, certamente saberá se valer das múltiplas qualidades da Sarita.

quarta-feira, 17 de março de 2010

TRINO

Nesgas de rusgas
escalavram meu rosto:
                     anoiteço

CHORAMINGANDO

Após dois meses de cirurgia, continuo do mesmo tamanho.

Uma dúzia de parafusos metálicos nas costas, mas continuo com uma dor filha da puta ao ficar de pé -- e ela consegue piorar quando eu ando.

Estou tomando medicamentos e, às vezes, sinto uma discreta melhora. Espero que melhore mesmo. Quiuspa...

Desculpem usar este espaço para choramingar...

terça-feira, 16 de março de 2010

TRINO

Me bati nas pedras
e me escorri dolente.
                        Chovi.

DIOGO, PEDRO E O SORRISO

segunda-feira, 15 de março de 2010

Cuba y los recuerdos (2)

A gente escrevinha algumas coisas e depois esquece -- antigamente no fundo da gaveta, agora no disco rígido.

Por coincidência, navegando em textos passados, encontrei este, que vem bem a calhar para dar um toque mais poético ao texto anterior -- seco e áspero.

Não: pensando melhor, este poema é até mais áspero e seco...

Talvez porque a gravidade do assunto não permita sorrisos e suavidade.



POLITICAGEM



Fervilhando de idéias

e panacéias mis:

esse é o terreno estéril

em que se plantando

tudo é árido,

tudo é ávido,

tudo é grávido.

Em autodefesa:

o jovem comunista

é um idealista.

O velho comunista

ou é um canalha

ou um estúpido.

E, lendo Thiago:

o poeta comunista

é um redator de panfletos

discursivos, burocráticos,

politicamente corretos,

poeticamente abjetos.

Totalitarismo não rima

com humanismo,

rima com gado, com boiada,

e nem os pássaros

— voando em bando

e titicando sem estética,

sem romantismo ou poesia —,

nem os pássaros,

poupariam a cabeça

de tal poeta.

Cuba y los recuerdos

Fico triste e envergonhado com esse noticiário a respeito da canalhice das declarações de Lula sobre presos políticos cubanos.

Mas o que me deixa mais triste é a simples existência desses presos políticos.

É um caso de desilusão amorosa, eu me sinto traído, me sinto um tolo.

Me vem à lembrança: era 1963 e eu tinha dezenove anos. Era diretor do Sindicato dos Securitários do Rio de Janeiro e surgiu a oportunidade de integrar uma delegação de sindicalistas que visitaria Cuba para as comemorações do Primeiro de Maio. Às expensas do governo cubano.

Devo acrescentar que eu era comunista. O PCB era um partido ilegal, mas naquela época agia com toda a liberdade. O partido, oficialmente, não encarava com bons olhos a revolução armada. Mas eu, pessoalmente, era fascinado pelos revolucionários tipo Che Guevara e Camilo Cienfuegos.

E foi uma alegria, porque tivemos oportunidade até de uma entrevista com o Che, no gabinete dele, informalmente, charuto na boca e pistola na cintura.


A emoção de ir a Cuba, por isso tudo, era estonteante. E, apesar de toda a miséria que vi, apesar da imprensa oficial monopolizar a informação, apesar dos fuzilamentos no paredón -- não foram abaladas minhas convicções e minha simpatia: afinal, a Revolução tinha apenas quatro anos, ela iria mudar aquele quadro.

E de fato, mudou. Há alguns anos, creio que em 1996, voltei à Cuba como turista. O ônibus parava e uma pequena multidão de crianças vinha pedir dolares, embora aleguem que não há mendicância.

O racionamento de alimentos e o sistema de saúde falido, praticamente restrito ao atendimento básico, sem os recursos de que a ciência médica dispõe hoje – embora a propaganda fale em uma medicina fabulosa.

A miséria se entrevia em toda parte. Sim, a Revolução mudou aquele quadro da primeira viagem, mas mudou pra pior.

No entanto, pior mesmo é constatar que todas as denúncias de atrocidades eram verdadeiras.

Deixe-me explicar. Quanto se é um jovem comunista, a gente não acredita no que dizem sobre os governos marxistas. A gente acha que é propaganda anticomunista apenas. Ainda mais Cuba, que pela beleza e empatia de seu povo era muito mais enternecedora e sua revolução muito mais fascinante, voluptuosa até.

E, de qualquer forma, comunismo é como uma religião, é como crer em Deus. É difícil deixar de acreditar. Tanto que rompi com o Partido em 68, mas continuei acreditando no marxismo-leninismo por mais alguns anos.

A meu favor, devo dizer que, apesar da minha estupidez, pelo menos eu consegui deixar de ser comunista muito antes da queda do muro de Berlim.

Ainda assim, eu me envergonho por ter sido tão ingênuo, por acreditar que aquele era o caminho para a justiça social, a liberdade e o bem estar do povo.

Só o que me consola, às vezes, é a frase que alguém disse a respeito da minha geração: quem não foi socialista na juventude não tinha coração e quem continua sendo, não tem cérebro.

quinta-feira, 11 de março de 2010

ANA

Hoje, a Ana fez anos. 

Eu ia escrever "comemorou mais um aniversário", mas essa expressão é muito pomposa e não combina com a Ana. 

Ela, de fato, faz anos. Com displicência e elegância, sem se queixar nem se vangloriar, com a alegria natural de quem está caminhando e pretende continuar caminhando muito mais.

Espero que ela continue por muito tempo, por um tempo incrível, que atinja e supere sua meta anunciada de 120 anos.

Por quê não? 

Seria melhor para ela e para todos nós que conseguirmos acompanhá-la em parte dessa caminhada, usufrundo sua companhia.

segunda-feira, 8 de março de 2010

MULHERES

Hoje é oficialmente o dia das mulheres. Não confundir. Não é  dia de mulheres: esse é todos os dias em que elas estão presentes, atuantes, criativas.

Como nós temos a capacidade inata de esculhambar qualquer coisa, muito do 08 de março já se transformou em mero apelo comercial. 

Esquecemos todo o simbolismo que levou à escolha de uma data que marcasse as lutas que elas travaram e as porradas que levaram para conquistar seu espaço.


Espaço que continuam conquistando até hoje.

domingo, 7 de março de 2010

INSENSATO

Insensato que sou:
a vida se foi,
as forças queimaram
e eu fiquei só,
sem meu poema
não começado.

Uma estrofe se basta,
é um poema acabado:
mas meu ponto final
tem muitas reticências.

Como resistir
e não acrescentar outra
e outras infindas estrofes,
qual num poema
transinfinito? 

Mas porque eu não disse
o que precisava dizer,
no tempo certo de dizer,
agora é tarde.

As estrofes necessárias
não são mais necessárias
nem possíveis.

Agora é tarde
porque para contar uma vida
é preciso uma vida,
e para ouvir uma vida
é preciso outra vida. 

Agora é tarde:
o momento não existe mais
e o sentimento
é só a lembrança
do sentimento.

Insensato que sou:
a métrica se foi,
as rimas escapuliram
e eu fiquei só
com meu poema
envergonhado.

PS: Esse troço de sensatez parece que é uma obsessão minha... Desculpem qualquer coisa.

sábado, 6 de março de 2010

CONTANDO VANTAGEM


O tema era a gripe suína e a respectiva vacina. Alguém me disse:
– Você não precisa se incomodar com essa vacina. É diferente da gripe comum: não é pra velho.
– Não gosto de me vangloriar – retruquei –, mas eu não sou apenas um velho. Sou também pneumopata e coronariopata. Me respeite...
***
O que me fez lembrar um amigo com quem encontrei no outro dia. Cumprimentei:
– E aí, rapaz? Como você está?
E ele:
– Estou bem... Bem velho, bem doente, bem brocha...

SEQUESTRO DE CRIANÇAS

Imagine um sujeito que sequestra crianças e passa a exigir resgate.


Imagine que esse resgate é exigido de pessoas que não são parentes dessas crianças e que, na verdade, não têm nenhum envolvimento emocional com elas. 

Pois é esse o cenário: os sequestradores são os professores da rede pública que, pela enésima vez, decretaram greve no estado de São Paulo. E o resgate é cobrado do governo do estado.

A postura dos professores grevistas exibe toda a crueldade e covardia de um sequestro tradicional. As vítimas são as crianças indefesas e os pais dessas crianças, também indefesos porque são pobres e dependem totalmente do ensino público. Os algozes são os professores, que exigem resgate dos governantes, que, por sua vez, não estão nem aí.

Aposto que você nunca ouviu falar de greve na rede privada de ensino. Também não se tem notícia de que uma greve na rede pública tenha conseguido o seu intento. A ladainha dos pelegos que lideram esse processo é a mesma: pressionar o governo. Que pressão? Você conhece algum político que tenha perdido um só voto porque teve greve de professores no seu mandato?

Provavelmente voltarei a este assunto.

sexta-feira, 5 de março de 2010

Verdades Verdes




Verdades, quando muito verdes,
são como mentiras maduras.

As verdadeiras verdades
            devem maturar
            antes que se tornem
             torturas e tremores.

A verdade só toma gosto
            depois de algum tempo à toa,
            quando deixa de ter importância.

A verdade verde
            dá náuseas, dá ânsias
            de se esconder, de se defender,
            de dizer:
                        não, não é verdade.

Enfim: a verdade corrói
— merda! —, destrói
            tudo aquilo que a gente queria
            que fosse e que não é —
                        e que dói.

quinta-feira, 4 de março de 2010

COMPROVANTE DE RESIDÊNCIA E ATESTADO DE ESTUPIDEZ

Algumas convicções que alardeio podem ser facilmente atribuíveis à senilidade. “É coisa da idade, rabugice de velho”. No entanto, são convicções que, às vezes, datam de décadas e algumas vêm da minha juventude.

Vejamos uma dessas rabugices.

No Brasil existe uma excrescência chamada “comprovante de residência” (1). Você faz um requerimento e, dentre os incontáveis documentos exigidos com firma reconhecida, vem o indefectível comprovante de residência. Na prática, isso é sinônimo de boleto de cobrança de luz, gás ou telefone.

E se o infeliz contribuinte não tem conta de nada disso, por exemplo, porque mora em residência onde esses ônus correm por conta do cônjuge? Nesses casos, devem ser anexados os comprovantes, referente a três meses, e uma declaração do cônjuge de que é cônjuge mesmo e de que moram juntos no tal endereço  (2).

Vamos analisar o que existe de legalidade nessa história.

Primeiramente, qual o dispositivo legal que criou o comprovante de residência e determinou que conta de telefone tem o poder de funcionar como documento hábil nessa comprovação?

Resposta: nenhum.

Isso mesmo: não existe nenhuma Lei, Decreto, Portaria, Ordem de serviço ou assemelhado que estabeleça tamanha estultice.
Pelo contrário, nesse terreno nossa legislação é um marco de civilização: se eu digo que moro em determinado lugar, o que faz prova disso é a minha declaração.

Isso está textualmente previsto na Lei nº 7.115, de 29.08.83, no seu artigo 1º: “A declaração destinada a fazer prova de vida, residência, pobreza, dependência econômica, homonímia ou bons antecendentes, quando firmada pelo próprio interessado ou por procurador bastante, e sob as penas da Lei, presume-se verdadeira

É claro que isso não vale para fins de prova em processo penal e é óbvio também que se a declaração for falsa, cabem senções civis, administrativas e criminais.

De qualquer forma, um fato é incontornável: a declaração do interessado é verdadeira até prova em contrário.

qual o embasamento para que órgãos do poder público exijam comprovantes não previstos em documento legal? Também, nenhum. Como se sabe, ao ente privado, é lícito fazer o que não é vedado por Lei, mas o ente público só pode fazer o que a Lei determina. (3)

Acresce que a comprovação pretendida acaba não se concretizando porque qualquer um pode ter uma conta de luz de um endereço que já abandonou há um ou dois meses. Quem exigiu a comprovação fica feito bobo, segurando um papel inútil para todos os fins.

Essa conduta estranha também é exigida pelo comércio em geral. Também aí, os bobos ficam segurando um papel sem valor, acreditando-se muito espertos. Mas no comércio não há do que reclamar: eles exigem o que querem, é um direito do contrato privado. E você tem que participar da farsa -- ou não faz negócio

De qualquer forma, para mim, a empresa que age assim é merecedora de desprezo, porque burocratiza a transação e porque é burra.


(1) Na verdade, no Brasil existem inúmeras excrescências, mas vou me ater apenas a uma.
(2) Estou bem informado porque ontem tive que fazer tudo isso a fim de permitir que a Ana encaminhasse requerimento ao Detran para regularizar sua carta de habilitação.
(3) Estou com preguiça de pesquisar a fórmula correta, mas é mais ou menos isso.

Voltei. Ou não?

Um dos critérios para avaliar publicações é analisar sua periodicidade. Se for um semanário e sair com intervalos de, por exemplo, nove ou dez dias, a seriedade formal da publicação está comprometida.


É claro que esse blog não alardeou nenhuma periodicidade – até porque eu não sou bobo. Mas é mais claro ainda que, após alguns dias de alimentação diária, uma interrupção de várias semanas aponta inapelavelmente para minha cabal incompetência como periodista.


Não importa a causa. Na verdade, a causa que existiu -- minha cirurgia -- só justificaria uns poucos dias de abstenção. O restante do tempo deveu-se a um misto de preguiça e inércia, com uma pitada de depressão pós-cirurgica.


Não vou pedir desculpas porque não tem cabimento e, além disso, haverá até quem me agradeça por ter parado de escrever. De qualquer forma, vou retomar meus registros como se nenhum deslize tivesse sido cometido.


A meia dúzia de leitores ocasionais há de se contentar com mais uma excentricidade senil.

domingo, 17 de janeiro de 2010

Excruciante? Ora, faça-me o favor...

Amanhã, vou me submeter a uma cirurgia na coluna lombar para fixar uma escoliose. Ela foi diagnosticada quando eu ainda era jovem, mas os sintomas dolorosos se agravaram boçalmente nos últimos anos.

É uma dor excruciante.

Pera aí, deixa eu dizer isso de maneira mais simples: dói pra caralho!

Eu não consigo ficar cinco minutos em pé, não consigo andar vinte metros. Estou semi-inválido e por isso vou correr o risco de uma cirurgia que é uma verdadeira tourada para os cirurgiões.

Isso irá justificar minha ausência deste espaço nos próximos dias. Se o desfecho for infausto (sempre tive vontade de usar essa palavra), minha ausência será definitiva e este espaço merecerá o status de blog mais efêmero da internet – honraria que estou ardentemente dispensando.

Pra não perder o hábito, vai um poeminha

CHINELOS


Eu nem sempre fui

essa coisa vetusta e gasta

que agora você vê.


Mas nem a lembrança ficou.

Porque a lembrança

não fica mesmo:

ela sempre vai embora,

só que mais devagar,

arrastando os chinelos

como os velhos

que procuram retê-la.

O que resta sempre

e permanece --

inda que indesejado,

e sem que se saiba,

ou que se lembre o porquê --

                     é este amargo.

sábado, 16 de janeiro de 2010

Porque hoje é sábado


Ontem não postei nada.



Muita gente deve achar que eu sou um velho aposentado, que não tem mais o que fazer a não ser escrever besteiras neste espaço. Mas o fato é que eu trabalho feito gente grande e, às vezes, não sobra tempo para escrever.


Eu até tinha pensado em discorrer sobre “escangalhar”, um verbo que, não sei por que, acho engraçado. Seria puro besteirol, mas besteirol também é cultura – e, mesmo que não fosse, este não é um espaço cultural. Quem quiser cultura que acompanhe os releases do Planalto. Bom, mas afinal acabei concluindo que o tema não dava samba.


O fato é que hoje vou degustar uma feijoada, programa originalíssimo para o almoço do sábado. Há algum tempo, quando um amigo me mandou um e-mail falando em “degustar uma feijoada”, expliquei para ele, pacientemente: quem “degusta” feijoada é veado, porra!


No entanto, aqui estou eu usando esse verbo, em vez de “comer” ou “traçar”. E garanto que não mudei minha opção sexual. Acontece que essa feijoada será em família, com meus filhos, sobrinha, sobrinha-neta e neto. Então, degustar aqui se aplica ao contexto em que a feijoada será devidamente devorada.


Depois, é claro, vou tirar uma soneca: quando traço um feijão eu fico escangalhado...





quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

Filipe e Rafa: bonitos que nem o avô


Pausa


Por falar em louco, talvez o título do blog não tenha sido escolhido de forma tão aleatória como eu tinha dito: descobri esse poeminha que cometi há muitos anos e que tem tudo a ver com essa insanidade.
Uma pausa para a loucura...


Sensatez



Insensatos são os outros.

É certo que sou poeta
no mau sentido da palavra,
no que ela tem de pejorativo
      e de tolo,
na alienação que sugere,
no que lembra
      devaneio e fuga.

Mas não sou insensato.

Admito que fantasio,
      que falo sozinho
                  e tenho visões,
      que ora me recolho catatônico
                  e ora danço pelas ruas,
      que me embriago
                  e digo coisas desconexas.
Reconheço que não é pouco,
mas assim são os fatos.
Aceito que sou louco.
Mas os outros, sim,
      são insensatos.

É verdade que me apaixono
      e me entrego
      e mergulho em desespero
      e em voragem suicida.
Que choro sem razão
      uma noite inteira
e, com razão,
      no dia seguinte.
Que blasfemo contra o criador
      e contra a criatura,
contra o caricaturista
      e contra o caricato.
Aceito minha loucura,
mas eu não:
      os outros
                  é que são insensatos.









quarta-feira, 13 de janeiro de 2010

Por falar em Lula...

A manchete do UOL anunciava hoje que Lula se dizia “profundamente consternado por morte de Zilda Arns e militares” (http://noticias.uol.com.br/cotidiano/2010/01/13/ult5772u7041.jhtm).
Corri para o texto, porque me pareceu quase impossível o presidente pronunciar a palavra “consternado”. O corpo da notícia esclarece melhor: é uma nota oficial, não foi o presidente quem se manifestou verbalmente.
Todos sabemos que notas oficiais de presidentes, em geral, não são redigidas por eles. Imagino que todos eles tenham um ghost writer para esse trabalho, exceção feita a Getúlio Vargas e sua carta de suicida.
De qualquer forma, a nota subscrita por Lula foi extremamente infeliz ao declarar que “transmito meu pesar e minha total solidariedade ao povo haitiano e à família das vítimas brasileiras, civis e militares, em especial à de Zilda Arns”.
Por que uma vida, por mais digna e benfazeja, deve ter seu fim lamentado em especial, em detrimento de milhares de outras vidas? Essa postura discriminatória não foi adotada pelo bispo católico, irmão de Zilda: ele declarou elegantemente que ela “sofreu com o bom povo do Haiti o efeito trágico do terremoto”.
A pediatra e sanitarista Zilda Arns desenvolvia um trabalho humanitário e eu admiro isso. Já quando esse trabalho é desenvolvido por motivações religiosas, para garantir um lugar no paraíso – o que quer que isso seja –, já não admiro tanto. Isso porque acredito que o humanitarismo é quase que um instinto humano e não deveria ser valorizado quando praticado em troca de alguma coisa, mesmo que seja uma coisa sobrenatural e inconsistente.
No entanto, não se pode conhecer a motivação íntima das pessoas e também não posso nem devo condenar ninguém a priori por ter uma crença religiosa. Por isso, Zilda fica com o benefício da dúvida e seu trabalho deve ser respeitado.
Admito, portanto, que ela efetivamente amava os outros seres humanos, pelo simples fato de serem humanos, e desejava lhes proporcionar uma vida real digna, independentemente de uma suposta vida após a morte.
Apesar de todo esse respeito devido a Zilda, a nota assinada pelo presidente foi lamentável ao considerar a vida dela mais especial que a vida de todas as outras vítimas do terremoto.
Creio que o Planalto deveria ter soltado uma nota para todas as vítimas e outra nota específica para Zilda. Aparentemente a mídia não se deu conta dessa mancada diplomática. O fato é que, pra mim, essa nota presidencial pareceu uma atitude muito feia.
A Dra. Zilda, provavelmente, a julgar pela sua história, também não gostaria disso.

O Haiti não é aqui


O Haiti é uma merreca de país, com menos de 80 mil km² e cerca de 8 milhões de habitantes.
Aboliu a escravatura no século 18 e tornou-se independente da França no início do século 19, ou seja, antes que esses eventos ocorressem no Brasil. Portanto, digam o que disserem, o fato é que os haitianos podem afirmar: nossa miséria, fomos nós que construímos...
Bom, talvez não os haitianos todos, mas durante muitos séculos sempre existiu um punhado deles dedicado a conturbar e arruinar o país.
Na história mais recente, me lembro de François Duvalier, o Papa Doc. Ele foi eleito presidente, mas tornou-se um ditador. Não, não um ditadorzinho qualquer, mas um criminoso empedernido e cruel. Os seus policiais, que  aterrorizavam a população com o vodu, eram conhecidos como tontons macoutes, que significa bichos-papões.
Quando morreu, o filho dele, Baby Doc, herdou o cargo de ditador, mantendo o regime, mas acabou fugindo do país em meados dos anos 1980. A partir daí, o Haiti teve uma miríade de governantes, todos sucessivamente depostos em golpes de estado quase que mensais.
Com tudo isso, essa merreca de país atingiu o status de pais mais pobre das Américas.
E agora vem esse terremoto devastador... Aos destroços econômicos, sociais e morais, somam-se os destroços nada metafóricos da ação da natureza.
Acho que vou parar de criticar o Lula...

terça-feira, 12 de janeiro de 2010

Não é um blog médico

Sou médico, mas vou evitar temas de Medicina neste espaço.
Também não quero ficar preso à formalidade e à correção política que, geralmente, as pessoas esperam de um profissional de saúde.
Aqui, estou de férias...
Por outro lado, não estou fazendo nenhum juramento ou assumindo um compromisso solene: pode acontecer que a Medicina, de tão entranhada em mim, acabe aflorando nessas mensagens.
Em resumo, o que eu quero dizer é que, embora seja um blog de médico, este não é um blog médico.

Por que "de médico e de louco..."?

Não há razão nenhuma, é um título sem qualquer justificativa ou duplo sentido.
Não tem justificativa, mas tem explicação. Há pouco, comecei a estruturar esse blog e quando me pediram o nome , embatuquei. Naveguei um pouco, enquanto pensava no título, e li num site de livraria que "de poeta, médico e louco, todos nós temos um pouco". Voltei pra cá e botei o título, excluindo o poeta. Muito embora eu já tenha me metido a poeta e até pretenda, vez por outra, postar alguns dos poemas que cometi.
De resto, não tenho planos pra esse espaço. Vamos ver...