quinta-feira, 27 de abril de 2017

Recomeçando

Vou recomeçar.
"Ai! Que preguiça!" Mário de Andrade in Macunaíma

Por preguiça de pensar, vou recomeçar usando apenas poemas que cometi ao longo da vida.

Assim sendo, sem mais delongas, vamos em frente. Ou em baixo...






O Roni era assim


Que morra logo...

Roni Marques

Este atalho que eu trilho
é coberto de lama
que se espreme entre os dedos dos meus pés,
enquanto esses pés se afundam me conduzindo
pra onde não tenho certeza.
Se afundam
nesse lodo que exala um cheiro pútrido,
como se sepultassem
meus sonhos.
Meus apodrecidos sonhos
da juventude e da velhice.
E esse miasma me penetra o peito
transita rascante e ardido em
meus pulmões
E esse miasma me rasga o peito
enquanto me afundo na podridão
como se estivesse — e estou —
avançando para o futuro.
Futuro em que
logo vou chegar, afogado
e sem passado.
Não será essa lama sórdida
que irá impedir meus passos.

Não desisto de desistir.

E renasço.



Busca

Roni Marques

Todos os poemas foram escritos,
todas as canções foram compostas,
todo o sofrimento  foi usufruído e toda alegria, suportada.
Onde encontrar elegias e odes virgens?
E terras, árvores, flores, pássaros,
onde encontrá-los em estado de graça
ainda não violado pela pena doutros doutos poetas?
Só me resta arfar, insano, tentando rescrever a vida
e amar mulheres já exaustivamente amadas
e percorrer  caminhos já sofregamene
trilhados e palmilhados.
Por que não me foi dado exorcizar-me e escrever, por exemplo
       — e só por exemplo — "Toma um fósforo, acende teu cigarro" ?
Sigo escandescendo e evanescendo, ensandecido enfim,
na noite apagada, tão repetida.
E afago as chagas que não tenho, apago um fogo que é só cinzas,
e me calo antes de falar,
pois minha voz soaria rouca, e eu desafinaria,  e  minhas palavras
— se houvessem palavras —
seriam ásperos e guturais ruídos, sem o visgo que deve unir palavras
para formar uma ideia
ou o simulacro de uma ideia,
a  contrafação de um pensamento.

II

Quem, longe, ouviria meus gritos, se eu gritasse?
As musas, decerto que não, nem os duendes, nem as fadas,
nem os peixes.
Quem ouviria um grito mudo, veleidade doida,
vociferação ressentida e amarga?
E quem és tu,  afinal,  que me lês
e acompanhas essas vicissitudes que são só minhas,
que flagelam só a mim e que exponho em vitrina,
por indecoroso que sou?
Estou a tua  espreita: certamente tens taras inconfessáveis,
ou que confessas apenas em determinadas circunstâncias,
e eu quero te dar todas as circunstância
para te conhecer todas as taras.
Não, não pares  de ler,  não  tires teus olhos destas letras,
continua solidariamente nesse sacrifício impuro
e insolente — mas intrépido.
Por que não?
Agora, ao menos, te conheço a ti, que já leste
tudo o que valia a pena ler
mas continuas buscando.

III

Mas essa chuva que ouves no telhado sou eu.
É a água em que me esvaio
         molhando a terra, as telhas, as trevas,
         escorrendo pela sarjeta, suja, sórdida
         e, numa volúpia, me esgotando nos esgotos.
Sou eu que molho, penetro, escavo.
Não crio nada
mas nada se cria sem mim.
Sou eu que filtro a luz
e construo o arco-íris,
mas sugiro dor e inspiro pranto.
Onde tudo é cor
eu sou em preto-e-branco.

IV

Eu tinha fome e a figueira não tinha frutos.
Desfolhada, me negava sombra para que eu repousasse
minha fome e meu cansaço de tão extenuante jornada.
E  eu  amaldiçoei  a  figueira  para todo o sempre,
generoso que sou,
pois o sempre da figueira é limitado, mas não minha fome
nem esse meu cansaço.
Prossegui, através dos séculos, até chegar aqui,
esquálido, inerme,
quase sem forças para erguer a pena com que escrevo
e, portanto, apto para ser um poeta.
Mas todos os poemas, todos os versos, já foram expropriados,
todas as canções cantadas, todo o sexo fornicado,
e por mais que eu percorra o espaço,
outras galáxias, buracos negros,
por mas que eu palmilhe os limites do universo
e que retorne no tempo, à explosão primordial,
à eclosão do ovo cósmico,
ao flato divino,
não vejo senão esses olhos de mulher,
e só esse cheiro de fêmea me penetra as narinas,
e essa sua voz tilintando e me dizendo
"vem comigo, que te mostro a estrada 
e reparto contigo minha cama".
E  só assim  acredito que terei descanso e alimento,

e  me tornarei  mortal.


Cadeia

Roni Marques



Festa junina, sanfona,
me prende, a moça de tranças.
A saia rodada,
o rosto pintado
de batom e sardas.
No meu braço a mão suave,
o hálito fresco e cheiroso
bafejando  meu pescoço:
                   você tá preso, seu moço.

Essa moça me conduz
pra cadeia do arraial.
Estou preso, condenado,
pela moça colorida,
tranças  e saia rodada.

O fogo crepita e arde,
a sanfona sanfoneia,
toda a gente rodopia,
mãos aplaudem,  olhos brilham,
bocas cantam e gargalham
— ou sorriem como a moça,
requebrada na sanfona,
me olhando dentro dos olhos,
me deixando em alvoroço,
e dizendo num sussurro:
         você tá preso, seu moço.


Insensatez

Roni Marques 

Insensato que sou: a vida já se foi
e eu fiquei só, num poema em construção.
Uma estrofe se basta, é um poema acabado:
mas meu ponto final tem muitas reticências...
Como resistir
e não acrescentar outra
e outras infindas estrofes?
Mas como eu não disse
o que precisava dizer,
no tempo certo de dizer,
agora é tarde.
As estrofes necessárias
não são mais necessárias
        nem possíveis.
Agora é tarde, porque para contar uma vida
é preciso uma vida,
e para ouvir uma vida
é preciso outra vida.
Agora é tarde: o momento não existe mais
e o sentimento é só a lembrança
do sentimento.
(Em silêncio, eu repreendia meu pai pelo que ele fez e pelo que não fez. Meu pai morto se ri da minha repreensão. Meu pai morto se ri de tudo)
E eu culpo a poluição
por esses olhos lacrimejantes.
É a poluição, eu digo,
porque sei que nunca mais.
II
Concebo a estrada além da curva
— e logo constato que não há estrada
além da curva.
Me embriago para esquecer o todo
— e recordo os detalhes.
Andava de mãos dadas, carinhando outra mão
que agora se afasta
e acena de longe.
Forço a visão no que está longe
para que pareça perto
até que as lágrimas brotam
deixando a visão turva.
Concebo a estrada além da curva.

III
Teus ângulos e farpas me machucam
e eu sangro a seco, sangro um sangue
que não tenho.
Na verdade não tenho.
E é mais pelo sangue
que não vejo correr das feridas
que teus gestos me abrem
—  é mais por isso que eu choro
em si bemol
uma canção que nunca pude cantar
ou conceber,
enquanto as lágrimas que não verto
me penetram e se acumulam em mim
e me entumescem, me rompem,
inúmeros pedaços — mas indiviso.
Que eu nunca me divido: caio inteiro
com um ruído seco
como o de alguma coisa que se parte.
Que nunca me divido e nunca choro,
insensato que sou.


Lágrimas

                 Roni Marques

Lágrimas, às vezes,  são acres,
azedas,
         salobras.
Mas sempre acabam secando,
sem deixar gosto ou marca ou cheiro
(tal como o orvalho em rosadas pétalas).

Lágrimas são estigmas.
São como água do mar diluída,
água salgada que não sacia a sede
de quem dela bebe ou nela se embebe
         —  nem sequer embriaga.

Meus olhos são nascentes,
são olhos d'água de lágrimas:
sem leito próprio e sem estuário,
deles efluem e fluem
         lágrimas efêmeras,
         lágrimas mágicas, quase imaginárias,
         lágrimas fúteis,
         não palatáveis, perecíveis,
         que deixam na boca um sabor acerbo
                   e ferruginoso.

É, porém,  um líquido inútil,
incapaz de apagar meus incêndios
ou ao menos arrefecer
         o calor que sinto aqui, no peito.
E também não serve para limpar minhas mãos,
         meus pensamentos,
                   minha alma.

"É o fígado", dizem os tolos
para explicar esse gosto amargo que sinto.


Serpente                            

 Roni Marques


Pressinto
o teu bote de serpente
e o teu silvo como espada,
e que estás atrás e entre,
nesse alvoroço, calada
qual o ovo no teu ventre
Percebo
o meu sangue no teu dente,
e a minha carne marcada,
e tu te enroscando, quente,
tal como quem não quer nada,
para o bote, incontinenti.
Aspiro
tua peçonha, a essência
tão viscosa e viciosa,
que ainda me leva à demência
pela via tortuosa
de artéria, veia e ciência.
Mas sinto
no olhar e na tua graça
e no hálito que bafejas
por essa boca devassa:
quando me mordes, me beijas
e caçando, viras caça.     


Cinco Sentidos

Roni Marques

Nela nada se ocultava:
Ela era o que se via,
Mas seu olhar faiscava,
Quando o luar refletia
E era uma luz meio cava
Como uma triste alegria.

Não havia nela nada
Que me entristeça ou me zangue.
Mas sua pele tocada
Dava a sensação exangue
De uma pele açoitada
Que se esvaísse em sangue.

Não tinha nada de orgia
Naquele sorriso aflito.
Na verdade, ela sorria
Com o coração contrito:
Mesmo o riso de alegria
Ressoava como um grito.

Não tinha nada de errado
Naquele corpo moreno.
Mas os seus lábios inchados
Tinham um travo obsceno
Com sabor adocicado
De um doce e fatal veneno.

Não tinha nada de rogo
Naquele olhar tão afoito.
Mas tinha um quê demagogo
Na sua idade (dezoito)
Que cheirava como o fogo
Que queima durante o coito.

Sem título



Do vidro duvido,
até que me corte e me fira
e sangre.
Duvido, mas
o vil vidro
fere fundo.

Divido o vidro
            que me corta 
do vidro
            apenas etéreo.
Mastigo o vidro
e cuspo

            vitupérios.



Oferta e Procura


Lei de oferta e procura

Mas o que é uma mulher,
o que que tem de mais?
Tirando o sexo,
tirando o prazer da companhia
— aquele prazer sem sentido
que anula nossos sentidos —
tirando o corpo, a beleza do corpo,
o que que sobra? sobra nada.
Tira os olhos
que me amolecem,
me dão aquela sensação de elevador.
Tira a boca que, quando fala,
dá sempre uma vontade
de... sei lá.
Tira o nariz, tira as nádegas.
E daí? o que é uma mulher sem isso?
Tirante os seios, os quadris, as pernas
— meu Deus, as pernas... —
e tirante os pés,
tirante o sexo,
que eu já disse mas repito,
tirante isso e mais uma ou outra coisinha,
a mulher não é nada.
Não é nada
sem as mãos que tocam e arrepiam,
sem os braços, que apertam com força
na hora do gozo.
Sem os cabelos para a gente emaranhar,
o que é a mulher?
Coisíssima nenhuma,
nada, nada, nada....



TEMPO

Roni Marques
Passa o tempo
no passado
fere com ferro
enferrujado
Ferindo
e fedendo a fogo
passa o tempo
qual um jogo
de duras perdas
Tétricas rugas calafetando um sonho em espiral
No templo alguém canta
com voz rouquenha
a senha do amor
Amor cansado
é a voz do tempo
enferrujado
Crescem nas margens
do lago azul
miragens de vento
do amor cansado
no lago azul
Alento passado
de um tempo morrendo
enferrujado



NATAL
 Roni Marques
E dizem que fazia um lindo dia quando eu nasci:
era noite.
Nem uma estrela — esconderam-se.
Nem um ruído — calaram-se.
A lua eclipsou-se,
e a chuva, silenciosamente, escorria pelas vidraças.
E dizem que foi um lindo dia...
O mar parou de quebrar e estagnou.
A brisa deixou de soprar e refrescar a areia.
E as prostitutas não fizeram seu trotoar,
os cabarés cerraram suas portas,
as orquestras — nem uma marcha fúnebre.
E os passarinhos emudeceram
e as folhas desfolharam.
Ninguém se embriagou, as mulheres não riram
e as camas não sentiram o peso do amor.
E aquele vagido isolado — eu nascia —
só veio pesar ainda mais aquele silêncio,
aquela tristeza.


Morto

Roni Marques
sentindo nos artelhos argamassa d'alma
cuspindo no vento chorando fria
voz esparsa que desce ao lodo
sobe nunca acima de esterco
reclamo choro as costelas partidas
pulmão despedaçado babando insano
busco nos lábios corroídos em sangue
com farpas de vidro
refugio no capim verde e sarnento
voando verde o lusco-fusco morrem pássaros
triste sol chorando fogo frio-e-leve
vento cortando em vastas fatias
céu roxo
terra seca pesada morta
fedendo vegetal
nela mergulho
procuro         procuro
uma alma
a minha quem viu?








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