Vou recomeçar.
"Ai! Que preguiça!" Mário de Andrade in Macunaíma
Por preguiça de pensar, vou recomeçar usando apenas poemas que cometi ao longo da vida.
Assim sendo, sem mais delongas, vamos em frente. Ou em baixo...
Que morra logo...
Roni Marques
Este atalho que eu trilho
é coberto de lama
que se espreme entre os dedos dos meus
pés,
enquanto esses pés se afundam me conduzindo
pra onde não tenho certeza.
Se afundam
nesse lodo que exala um cheiro pútrido,
como se sepultassem
meus sonhos.
Meus apodrecidos sonhos
da juventude e da velhice.
E esse miasma me penetra o peito
transita rascante e ardido em
meus pulmões
E esse miasma me rasga o peito
enquanto me afundo na podridão
como se estivesse — e estou —
avançando para o futuro.
Futuro em que
logo vou chegar, afogado
e sem passado.
Não será essa lama sórdida
que irá impedir meus passos.
Não desisto de desistir.
E renasço.
Busca
Roni Marques
Todos os poemas
foram escritos,
todas as canções
foram compostas,
todo o
sofrimento foi usufruído e toda alegria,
suportada.
Onde encontrar
elegias e odes virgens?
E terras, árvores,
flores, pássaros,
onde encontrá-los em
estado de graça
ainda não violado
pela pena doutros doutos poetas?
Só me resta arfar,
insano, tentando rescrever a vida
e amar mulheres já
exaustivamente amadas
e percorrer caminhos já sofregamene
trilhados e
palmilhados.
Por que não me foi
dado exorcizar-me e escrever, por exemplo
— e só por exemplo — "Toma um
fósforo, acende teu cigarro" ?
Sigo escandescendo e
evanescendo, ensandecido enfim,
na noite apagada,
tão repetida.
E afago as chagas
que não tenho, apago um fogo que é só cinzas,
e me calo antes de
falar,
pois minha voz
soaria rouca, e eu desafinaria, e minhas palavras
— se houvessem
palavras —
seriam ásperos e
guturais ruídos, sem o visgo que deve unir palavras
para formar uma
ideia
ou o simulacro de
uma ideia,
a contrafação de um pensamento.
II
Quem, longe, ouviria
meus gritos, se eu gritasse?
As musas, decerto
que não, nem os duendes, nem as fadas,
nem os peixes.
Quem ouviria um
grito mudo, veleidade doida,
vociferação
ressentida e amarga?
E quem és tu, afinal,
que me lês
e acompanhas essas
vicissitudes que são só minhas,
que flagelam só a
mim e que exponho em vitrina,
por indecoroso que
sou?
Estou a tua espreita: certamente tens taras
inconfessáveis,
ou que confessas
apenas em determinadas circunstâncias,
e eu quero te dar
todas as circunstância
para te conhecer
todas as taras.
Não, não pares de ler,
não tires teus olhos destas
letras,
continua
solidariamente nesse sacrifício impuro
e insolente — mas
intrépido.
Por que não?
Agora, ao menos, te
conheço a ti, que já leste
tudo o que valia a
pena ler
mas continuas
buscando.
III
Mas essa chuva que
ouves no telhado sou eu.
É a água em que me
esvaio
molhando a terra, as telhas, as
trevas,
escorrendo pela sarjeta, suja, sórdida
e, numa volúpia, me esgotando nos
esgotos.
Sou eu que molho,
penetro, escavo.
Não crio nada
mas nada se cria sem
mim.
Sou eu que filtro a
luz
e construo o
arco-íris,
mas sugiro dor e
inspiro pranto.
Onde tudo é cor
eu sou em
preto-e-branco.
IV
Eu tinha fome e a
figueira não tinha frutos.
Desfolhada, me
negava sombra para que eu repousasse
minha fome e meu
cansaço de tão extenuante jornada.
E eu
amaldiçoei a figueira
para todo o sempre,
generoso que sou,
pois o sempre da
figueira é limitado, mas não minha fome
nem esse meu
cansaço.
Prossegui, através
dos séculos, até chegar aqui,
esquálido, inerme,
quase sem forças
para erguer a pena com que escrevo
e, portanto, apto
para ser um poeta.
Mas todos os poemas,
todos os versos, já foram expropriados,
todas as canções
cantadas, todo o sexo fornicado,
e por mais que eu
percorra o espaço,
outras galáxias,
buracos negros,
por mas que eu
palmilhe os limites do universo
e que retorne no
tempo, à explosão primordial,
à eclosão do ovo
cósmico,
ao flato divino,
não vejo senão esses
olhos de mulher,
e só esse cheiro de
fêmea me penetra as narinas,
e essa sua voz
tilintando e me dizendo
"vem comigo,
que te mostro a estrada
e reparto contigo
minha cama".
E só assim
acredito que terei descanso e alimento,
e me tornarei
mortal.
Cadeia
Roni Marques
Festa junina, sanfona,
me prende, a moça de tranças.
A saia rodada,
o rosto pintado
de batom e sardas.
No meu braço a mão suave,
o hálito fresco e cheiroso
bafejando meu pescoço:
você tá preso, seu moço.
Essa moça me conduz
pra cadeia do arraial.
Estou preso, condenado,
pela moça colorida,
tranças e saia rodada.
O fogo crepita e arde,
a sanfona sanfoneia,
toda a gente rodopia,
mãos aplaudem, olhos brilham,
bocas cantam e gargalham
— ou sorriem como a moça,
requebrada na sanfona,
me olhando dentro dos olhos,
me deixando em alvoroço,
e dizendo num sussurro:
você tá preso, seu moço.
Insensatez
Roni Marques
Insensato que sou: a
vida já se foi
e eu fiquei só, num
poema em construção.
Uma estrofe se
basta, é um poema acabado:
mas meu ponto final
tem muitas reticências...
Como resistir
e não acrescentar
outra
e outras infindas
estrofes?
Mas como eu não
disse
o que precisava
dizer,
no tempo certo de
dizer,
agora é tarde.
As estrofes
necessárias
não são mais
necessárias
nem possíveis.
Agora é tarde,
porque para contar uma vida
é preciso uma vida,
e para ouvir uma
vida
é preciso outra
vida.
Agora é tarde: o
momento não existe mais
e o sentimento é só
a lembrança
do sentimento.
(Em silêncio, eu
repreendia meu pai pelo que ele fez e pelo que não fez. Meu pai morto se ri da
minha repreensão. Meu pai morto se ri de tudo)
E eu culpo a
poluição
por esses olhos
lacrimejantes.
É a poluição, eu
digo,
porque sei que nunca
mais.
II
Concebo a estrada
além da curva
— e logo constato
que não há estrada
além da curva.
Me embriago para
esquecer o todo
— e recordo os
detalhes.
Andava de mãos
dadas, carinhando outra mão
que agora se afasta
e acena de longe.
Forço a visão no que
está longe
para que pareça
perto
até que as lágrimas
brotam
deixando a visão
turva.
Concebo a estrada
além da curva.
III
Teus ângulos e
farpas me machucam
e eu sangro a seco,
sangro um sangue
que não tenho.
Na verdade não
tenho.
E é mais pelo sangue
que não vejo correr
das feridas
que teus gestos me
abrem
— é mais por isso que eu choro
em si bemol
uma canção que nunca
pude cantar
ou conceber,
enquanto as lágrimas
que não verto
me penetram e se
acumulam em mim
e me entumescem, me
rompem,
inúmeros pedaços —
mas indiviso.
Que eu nunca me
divido: caio inteiro
com um ruído seco
como o de alguma
coisa que se parte.
Que nunca me divido
e nunca choro,
insensato que sou.
Lágrimas
Roni Marques
Lágrimas, às vezes, são
acres,
azedas,
salobras.
Mas sempre acabam secando,
sem deixar gosto ou marca ou cheiro
(tal como o orvalho em rosadas pétalas).
Lágrimas são estigmas.
São como água do mar diluída,
água salgada que não sacia a sede
de quem dela bebe ou nela se embebe
— nem sequer embriaga.
Meus olhos são nascentes,
são olhos d'água de lágrimas:
sem leito próprio e sem estuário,
deles efluem e fluem
lágrimas
efêmeras,
lágrimas
mágicas, quase imaginárias,
lágrimas fúteis,
não palatáveis,
perecíveis,
que deixam na
boca um sabor acerbo
e
ferruginoso.
É, porém, um líquido
inútil,
incapaz de apagar meus incêndios
ou ao menos arrefecer
o calor que
sinto aqui, no peito.
E também não serve para limpar minhas mãos,
meus
pensamentos,
minha
alma.
"É o fígado", dizem os tolos
para explicar esse gosto amargo que sinto.
Serpente
Roni Marques
Pressinto
o teu bote de
serpente
e o teu silvo como
espada,
e que estás atrás e
entre,
nesse alvoroço,
calada
qual o ovo no teu
ventre
Percebo
o meu sangue no teu
dente,
e a minha carne
marcada,
e tu te enroscando,
quente,
tal como quem não
quer nada,
para o bote,
incontinenti.
Aspiro
tua peçonha, a
essência
tão viscosa e
viciosa,
que ainda me leva à
demência
pela via tortuosa
de artéria, veia e
ciência.
Mas sinto
no olhar e na tua
graça
e no hálito que
bafejas
por essa boca
devassa:
quando me mordes, me
beijas
e caçando, viras
caça.
Cinco Sentidos
Roni Marques
Nela nada se
ocultava:
Ela era o que se
via,
Mas seu olhar
faiscava,
Quando o luar
refletia
E era uma luz meio
cava
Como uma triste
alegria.
Não havia nela nada
Que me entristeça ou
me zangue.
Mas sua pele tocada
Dava a sensação
exangue
De uma pele açoitada
Que se esvaísse em
sangue.
Não tinha nada de
orgia
Naquele sorriso
aflito.
Na verdade, ela
sorria
Com o coração
contrito:
Mesmo o riso de
alegria
Ressoava como um
grito.
Não tinha nada de
errado
Naquele corpo
moreno.
Mas os seus lábios
inchados
Tinham um travo
obsceno
Com sabor adocicado
De um doce e fatal
veneno.
Não tinha nada de
rogo
Naquele olhar tão
afoito.
Mas tinha um quê
demagogo
Na sua idade
(dezoito)
Que cheirava como o
fogo
Que queima durante o coito.
Sem título
Oferta e Procura
Do vidro duvido,
até que me corte e me fira
e sangre.
Duvido, mas
o vil vidro
fere fundo.
Divido o vidro
que
me corta
do vidro
apenas
etéreo.
Mastigo o vidro
e cuspo
vitupérios.
Oferta e Procura
Lei
de oferta e procura
Mas o que é uma mulher,
o que que tem de mais?
Tirando o sexo,
tirando o prazer da companhia
— aquele prazer sem sentido
que anula nossos sentidos —
tirando o corpo, a beleza do corpo,
o que que sobra? sobra nada.
Tira os olhos
que me amolecem,
me dão aquela sensação de elevador.
Tira a boca que, quando fala,
dá sempre uma vontade
de... sei lá.
Tira o nariz, tira as nádegas.
E daí? o que é uma mulher sem isso?
Tirante os seios, os quadris, as pernas
— meu Deus, as pernas... —
e tirante os pés,
tirante o sexo,
que eu já disse mas repito,
tirante isso e mais uma ou outra
coisinha,
a mulher não é nada.
Não é nada
sem as mãos que tocam e arrepiam,
sem os braços, que apertam com força
na hora do gozo.
Sem os cabelos para a gente emaranhar,
o que é a mulher?
Coisíssima nenhuma,
nada, nada, nada....
TEMPO
Roni Marques
Passa o tempo
no passado
fere com ferro
enferrujado
Ferindo
e fedendo a fogo
passa o tempo
qual um jogo
de duras perdas
Tétricas rugas calafetando um sonho em
espiral
No templo alguém canta
com voz rouquenha
a senha do amor
Amor cansado
é a voz do tempo
enferrujado
Crescem nas margens
do lago azul
miragens de vento
do amor cansado
no lago azul
Alento passado
de um tempo morrendo
enferrujado
NATAL
Roni Marques
E dizem que fazia um lindo dia quando
eu nasci:
era noite.
Nem uma estrela — esconderam-se.
Nem um ruído — calaram-se.
A lua eclipsou-se,
e a chuva, silenciosamente, escorria
pelas vidraças.
E dizem que foi um lindo dia...
O mar parou de quebrar e estagnou.
A brisa deixou de soprar e refrescar a
areia.
E as prostitutas não fizeram seu
trotoar,
os cabarés cerraram suas portas,
as orquestras — nem uma marcha fúnebre.
E os passarinhos emudeceram
e as folhas desfolharam.
Ninguém se embriagou, as mulheres não
riram
e as camas não sentiram o peso do amor.
E aquele vagido isolado — eu nascia —
só veio pesar ainda mais aquele
silêncio,
aquela tristeza.
Morto
Roni Marques
sentindo nos artelhos argamassa d'alma
cuspindo no vento chorando fria
voz esparsa que desce ao lodo
sobe nunca acima de esterco
reclamo choro as costelas partidas
pulmão despedaçado babando insano
busco nos lábios corroídos em sangue
com farpas de vidro
refugio no capim verde e sarnento
voando verde o lusco-fusco morrem
pássaros
triste sol chorando fogo frio-e-leve
vento cortando em vastas fatias
céu roxo
terra seca pesada morta
fedendo vegetal
nela mergulho
procuro procuro
uma alma
a minha quem viu?

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